Deus lo vult! — Deus quer!
— Grito da multidão no Concílio de Clermont, ao ouvir o discurso do Papa Urbano II (1095)
Para compreender as Cruzadas, é preciso compreender o mundo em que elas nasceram — um mundo profundamente diferente do nosso. Em 1095, a Europa Ocidental era uma sociedade feudal, guerreira e profundamente religiosa. A violência era endêmica: os cavaleiros — a classe guerreira — passavam a vida em guerras privadas, pilhagens e duelos. A Igreja havia tentado limitar esta violência com a "Paz de Deus" e a "Trégua de Deus" — proibindo ataques a civis e combates em dias santos. As Cruzadas foram, em parte, uma tentativa de canalizar esta violência para um objetivo "sagrado."
O Papado, sob a liderança de reformadores como Gregório VII (1073–1085), havia acabado de passar por uma revolução institucional. A Reforma Gregoriana havia afirmado a independência da Igreja em relação ao poder secular, a autoridade suprema do Papa sobre todos os reis e bispos, e a necessidade de uma Igreja moralmente renovada. O Papa Urbano II (1088–1099), que convocou a Primeira Cruzada, era um produto desta reforma — um papa confiante em sua autoridade e disposto a usá-la de forma audaciosa.
O discurso do Papa Urbano II no Concílio de Clermont (novembro de 1095) foi um dos mais consequentes da história. Não temos o texto exato — temos cinco versões diferentes, escritas por cronistas que o ouviram ou o reconstruíram. Mas todas concordam nos pontos essenciais: Urbano descreveu as atrocidades cometidas pelos turcos contra os cristãos do Oriente (algumas exageradas ou inventadas), convocou os cavaleiros ocidentais a partir em auxílio dos irmãos orientais, prometeu indulgência plenária (remissão de todas as penas dos pecados) a quem participasse da expedição, e apresentou a libertação de Jerusalém como o objetivo supremo.
A resposta da multidão foi imediata e avassaladora: "Deus lo vult!" ("Deus quer!") — o grito que se tornaria o slogan das Cruzadas. Milhares de cavaleiros e peregrinos costuraram cruzes em suas vestes e prometeram partir para a Terra Santa. O que Urbano havia desencadeado era algo que nem ele mesmo poderia controlar completamente — um movimento de massas que misturava devoção religiosa genuína, aventura, ganância e violência.
O discurso de Clermont levanta uma questão teológica fundamental: pode a violência ser sagrada? Pode Deus querer que seus seguidores matem em seu nome? A tradição cristã sempre teve dificuldade com esta questão. Agostinho desenvolveu a doutrina da "guerra justa" — a violência pode ser justificada quando usada para defender os inocentes, restaurar a paz e punir o mal. Mas a guerra justa tem condições estritas: deve ser declarada por autoridade legítima, ter causa justa, ser conduzida com intenção reta e usar meios proporcionais. As Cruzadas satisfizeram algumas destas condições — mas violaram outras de forma flagrante. Os massacres de judeus no Reno, o saque de Constantinopla e o massacre de Jerusalém em 1099 não podem ser justificados por nenhuma doutrina de guerra justa. Eles são o que são: crimes cometidos em nome de Deus.