Capítulo 18
As vitórias militares de Davi: o rei que expande o reino pela força de Deus
Texto Bíblico (ACF) — 1 Crônicas 18
1 E depois disto sucedeu que Davi feriu os filisteus, e os humilhou, e tomou Gate e as suas aldeias da mão dos filisteus.
2 E feriu a Moabe; e os moabitas foram servos de Davi, e lhe trouxeram presentes.
3 E Davi feriu a Hadadezer, rei de Zobá, em Hamate, quando foi estabelecer o seu domínio junto ao rio Eufrates.
4 E Davi tomou-lhe mil carros, e sete mil cavaleiros, e vinte mil homens de pé; e Davi jarretou todos os cavalos dos carros, mas reservou deles cem carros.
5 E vieram os sírios de Damasco para socorrer a Hadadezer, rei de Zobá; e Davi feriu dos sírios vinte e dois mil homens.
6 E Davi pôs guarnições na Síria de Damasco; e os sírios foram servos de Davi, e lhe trouxeram presentes; porque o Senhor salvou a Davi por onde quer que foi.
7 E Davi tomou os escudos de ouro que tinham os servos de Hadadezer, e os trouxe a Jerusalém.
8 E de Tibate e de Cune, cidades de Hadadezer, tomou Davi muito bronze; com o qual Salomão fez o mar de bronze, e as colunas, e os vasos de bronze.
9 E ouvindo Toú, rei de Hamate, que Davi havia ferido todo o exército de Hadadezer, rei de Zobá,
10 Enviou a Hadorão, seu filho, ao rei Davi, para o saudar e para o felicitar, porquanto havia pelejado contra Hadadezer e o havia ferido (porque Hadadezer fazia guerra contra Toú); e todos os objetos de ouro, e de prata, e de bronze.
11 Estes também o rei Davi consagrou ao Senhor, com a prata e o ouro que havia tomado de todas as nações: de Edom, e de Moabe, e dos filhos de Amom, e dos filisteus, e dos amalequitas.
12 E Abisai, filho de Zeruia, feriu dos edomitas no vale do Sal dezoito mil.
13 E pôs guarnições em Edom; e todos os edomitas foram servos de Davi; porque o Senhor salvou a Davi por onde quer que foi.
14 E Davi reinou sobre todo o Israel, e executava juízo e justiça a todo o seu povo.
15 E Joabe, filho de Zeruia, estava sobre o exército; e Josafá, filho de Ailude, era cronista;
16 E Zadoque, filho de Aitoube, e Abimeleque, filho de Abiatar, eram sacerdotes; e Savsa era escrivão;
17 E Benaías, filho de Joiada, estava sobre os quereteus e os peleteus; e os filhos de Davi eram os primeiros ao lado do rei.
Contexto Histórico e Geográfico
O capítulo 18 de 1 Crônicas insere-se no período do Reino Unido de Israel, especificamente durante o reinado de Davi, um momento de consolidação e expansão territorial sem precedentes na história israelita. Após um período inicial de turbulência e fragmentação sob Saul, Davi emerge como o líder carismático e militarmente astuto que unifica as tribos de Israel e Judá, estabelecendo Jerusalém como capital política e religiosa. Este capítulo particular detalha as vitórias militares de Davi contra os inimigos circundantes, solidificando as fronteiras e a influência de Israel na região. O livro de Crônicas, escrito séculos depois do período de Davi (provavelmente durante ou após o exílio babilônico e o período persa), revisita esses eventos com uma perspectiva teológica específica, enfatizando a fidelidade de Deus a Davi e a centralidade do Templo (ainda não construído neste ponto) e da dinastia davídica. O cronista, ao recontar essas vitórias, busca inspirar uma comunidade pós-exílica desanimada, lembrando-os da glória passada de Israel sob um rei piedoso e vitorioso, cuja força provinha de Deus.
A geografia desempenha um papel crucial na compreensão das campanhas militares descritas em 1 Crônicas 18. As localidades mencionadas delineiam o alcance do poder de Davi. Os filisteus, inimigos históricos de Israel, são derrotados em Gate e suas cidades adjacentes, localizadas na planície costeira do Sudoeste de Canaã, uma região estratégica que controlava rotas comerciais importantes. Moabe, a leste do Mar Morto, na Transjordânia, era um reino vizinho com quem Israel tinha uma relação complexa e frequentemente hostil. Zobá, um reino arameu, provavelmente localizado ao norte de Damasco, na Síria, representa um poder significativo na região, com o qual Davi entra em confronto ao tentar expandir seu domínio em direção ao rio Eufrates. Hamate, outro reino arameu mais ao norte, e Edom, ao sul do Mar Morto, também são subjugados, indicando a vasta extensão das conquistas de Davi. A menção do rio Eufrates sugere uma ambição territorial que remonta às promessas divinas de limites de terra para Abraão, estendendo-se "desde o rio do Egito até o grande rio, o rio Eufrates" (Gênesis 15:18). A conquista dessas regiões não apenas garantiu a segurança de Israel, mas também estabeleceu um império tributário que enriquecia o reino e consolidava sua hegemonia.
O contexto arqueológico e cultural do período de Davi, embora desafiador de reconstruir diretamente para todos os eventos específicos do capítulo, oferece insights valiosos. A arqueologia tem revelado a existência de cidades fortificadas e a complexidade social e política dos reinos vizinhos de Israel durante a Idade do Ferro IIA (c. 1000-925 a.C.), o período do Reino Unido. Evidências de uma cultura material filisteia distinta, com sua cerâmica e arquitetura, contrastam com a cultura israelita, mas também mostram interações e influências. Inscrições aramaicas de reinos como Damasco e Hamate, embora posteriores em alguns casos, atestam a existência e a proeminência desses estados. A prática de saque de metais preciosos, armas e carros de guerra, como descrito em 1 Crônicas 18, era comum na guerra antiga e é corroborada por achados arqueológicos. A conversão de despojos de guerra em tesouros para o santuário (e posteriormente para o Templo) é uma prática que ecoa em outras culturas do Antigo Oriente Próximo, onde a riqueza obtida em campanhas militares era frequentemente dedicada aos deuses ou utilizada para embelezar templos e palácios, sublinhando a interconexão entre poder militar, riqueza material e legitimidade religiosa.
A situação política e religiosa de Israel/Judá neste período é de ascensão e consolidação. Politicamente, Davi unifica as tribos, estabelece uma capital em Jerusalém e constrói uma administração centralizada. As vitórias militares descritas em 1 Crônicas 18 são cruciais para a afirmação dessa nova estrutura política, transformando Israel de uma confederação tribal em um reino com fronteiras definidas e influência regional. Religiosamente, Davi é apresentado como um rei que busca a vontade de Deus em suas ações. A transferência da Arca da Aliança para Jerusalém (narrada em capítulos anteriores) e a intenção de Davi de construir um Templo para Deus (embora a construção seja realizada por Salomão) demonstram a centralidade da fé na vida pública e política. O cronista, em particular, enfatiza que as vitórias de Davi não são meramente resultado de sua astúcia militar, mas sim da intervenção divina, um tema recorrente em todo o livro. A frase "o Senhor dava vitórias a Davi por onde quer que ele fosse" (1 Crônicas 18:6, 13) serve como um leitmotiv, reforçando a ideia de que o sucesso de Davi é um testemunho da fidelidade de Deus à sua aliança com Israel.
Conexões com fontes históricas extrabíblicas para o período de Davi são escassas e indiretas, mas não inexistentes. A Estela de Tel Dan, datada do século IX a.C., menciona a "Casa de Davi" (בית דוד), fornecendo a primeira evidência extrabíblica da dinastia davídica, embora seja posterior ao próprio Davi. Embora não haja registros diretos de Davi em textos egípcios, mesopotâmicos ou hititas, a existência de reinos arameus e filisteus é amplamente atestada em outras fontes. A menção de "Hadadezer, rei de Zobá" (1 Crônicas 18:3) é um nome arameu comum, e a existência de reinos arameus poderosos na Síria é bem documentada. A ausência de menções explícitas de Davi em registros contemporâneos de grandes potências regionais não é surpreendente, dado que Israel era uma potência regional emergente e não um império global na época. No entanto, a convergência de evidências arqueológicas e textuais, mesmo que indiretas, ajuda a contextualizar a narrativa bíblica dentro de um cenário histórico plausível do Antigo Oriente Próximo, confirmando a existência de muitos dos atores e cenários descritos.
A importância teológica de 1 Crônicas 18 dentro do livro é multifacetada. Primeiramente, as vitórias de Davi são apresentadas como o cumprimento das promessas divinas de terra e prosperidade para Israel. A expansão do reino sob Davi é vista como uma manifestação da bênção de Deus sobre seu povo. Em segundo lugar, o capítulo reforça a legitimidade da dinastia davídica. Ao demonstrar que Davi é o rei escolhido por Deus e abençoado com sucesso militar, o cronista estabelece a base para a promessa de uma linhagem real perpétua (2 Samuel 7). Terceiro, a dedicação dos despojos de guerra ao Senhor (1 Crônicas 18:11) enfatiza a soberania de Deus sobre todas as coisas e a importância de reconhecer sua providência em todas as conquistas. Essa prática também prefigura a construção do Templo por Salomão, pois esses tesouros seriam usados na sua edificação. Finalmente, para a comunidade pós-exílica, o capítulo serve como um lembrete do poder e da fidelidade de Deus, oferecendo esperança de restauração e um futuro glorioso, mesmo em tempos de adversidade. As vitórias de Davi, pela força de Deus, tornam-se um paradigma para a fé e a confiança na providência divina, independentemente das circunstâncias históricas.
Mapa das Localidades — 1 Crônicas Capítulo 18
Mapa das localidades mencionadas em 1 Crônicas capítulo 18.
Dissertação Teológica — 1 Crônicas 18
1. A Soberania Divina e a Expansão do Reino: Uma Perspectiva Teológica de 1 Crônicas 18
O capítulo 18 de 1 Crônicas não é meramente um registro histórico de conquistas militares de Davi; é, antes de tudo, uma poderosa declaração teológica sobre a soberania de Deus na expansão do seu reino. O cronista, escrevendo para um povo que retornava do exílio e buscava reafirmar sua identidade e fé, intencionalmente destaca que as vitórias de Davi não eram resultado de sua própria força ou astúcia militar, mas sim da intervenção direta e providencial de Yahweh. A repetição da frase "O Senhor deu vitória a Davi onde quer que fosse" (1 Cr 18:6, 13) funciona como um leitmotiv, um refrão teológico que permeia todo o texto, sublinhando que a mão de Deus estava sobre seu ungido, garantindo o sucesso e a consolidação do reino de Israel. Este conceito ressoa profundamente com a teologia do Antigo Testamento, onde Deus é consistentemente retratado como o "Senhor dos Exércitos" (Yahweh Sabaoth), aquele que combate em favor de seu povo, como visto nas narrativas do Êxodo (Êx 14:14) e na conquista de Canaã (Js 10:14).
A teologia do cronista, ao apresentar Davi como o agente da vontade divina, estabelece um paralelo significativo entre a expansão territorial de Israel e a promessa abraâmica de uma descendência numerosa e uma terra vasta (Gn 12:1-3; 15:18-21). As conquistas de Davi em 1 Crônicas 18 são a concretização parcial e tangível dessas promessas milenares. A subjugação de Moabe, de Hadadezer de Zobá, da Síria e da Filístia não são apenas atos de guerra, mas atos de cumprimento profético. Essa perspectiva teológica eleva as campanhas militares de Davi para além de meros conflitos geopolíticos, transformando-os em eventos salvíficos que demonstram a fidelidade de Deus à sua aliança. O reino de Davi, em sua extensão e poder, torna-se um tipo ou prenúncio do reino messiânico vindouro, onde a autoridade e a paz de Deus abrangerão todas as nações, conforme vislumbrado pelos profetas (Is 2:2-4; Zc 9:10).
É crucial notar que a soberania divina em 1 Crônicas 18 não anula a responsabilidade ou a agência humana de Davi. Pelo contrário, a fé e a obediência de Davi são os canais através dos quais a vontade de Deus é manifestada. Davi não é um mero fantoche; ele é um líder militar capaz, um estrategista astuto e um rei piedoso que busca a direção de Deus. No entanto, o cronista faz questão de enfatizar que, em última instância, a vitória não pertence a Davi, mas a Yahweh. Essa tensão entre a agência divina e humana é um tema recorrente na teologia bíblica e encontra sua síntese na ideia de que Deus opera através de instrumentos humanos, aperfeiçoando suas fraquezas e potencializando suas forças para cumprir seus propósitos. Para o cristão contemporâneo, isso serve como um lembrete poderoso de que nossos sucessos e conquistas, sejam eles pessoais, profissionais ou ministeriais, devem ser atribuídos à graça e à soberania de Deus, cultivando uma atitude de humildade e gratidão.
A aplicação prática dessa teologia da soberania divina é multifacetada. Primeiramente, ela nos encoraja a confiar em Deus em face de desafios aparentemente intransponíveis. Assim como Davi enfrentou exércitos poderosos e os subjugou pela força de Deus, também nós somos chamados a entregar nossas batalhas ao Senhor, crendo que Ele é capaz de nos dar a vitória. Em segundo lugar, ela nos adverte contra a autoconfiança e a vanglória. O perigo de atribuir o sucesso à própria habilidade é uma tentação constante, mas 1 Crônicas 18 nos chama a reconhecer que "toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes" (Tg 1:17). Finalmente, essa passagem nos inspira a viver vidas que glorificam a Deus, usando nossos talentos e recursos para expandir seu reino, não pela força militar, mas pelo testemunho do evangelho e pela manifestação do amor de Cristo, confiando que "não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos" (Zc 4:6).
2. Davi, o Guerreiro de Yahweh: Um Estudo Exegético das Conquistas Militares
O capítulo 18 de 1 Crônicas apresenta Davi não apenas como um rei, mas como um "guerreiro de Yahweh", um instrumento escolhido por Deus para executar seus juízos e expandir as fronteiras do seu povo. A exegese detalhada de cada campanha militar revela a intencionalidade do cronista em destacar a natureza teocêntrica dessas vitórias. A primeira conquista mencionada é a subjugação dos filisteus (1 Cr 18:1), um inimigo secular de Israel que havia oprimido o povo por gerações. A tomada de Gate e suas aldeias circundantes, ou "Metegue-Amá" (2 Sm 8:1), simboliza o fim de uma era de opressão e o início da hegemonia israelita na região. Essa vitória não é apenas um feito militar, mas um ato de libertação divina, ecoando as vitórias passadas de Deus sobre os inimigos de Israel, como a destruição do exército egípcio no Mar Vermelho. A conquista filisteia é um marco que estabelece a autoridade de Davi e a soberania de Deus sobre os inimigos de seu povo.
Em seguida, o texto narra a subjugação de Moabe (1 Cr 18:2), um povo com laços históricos e uma relação complexa com Israel, marcada por hostilidade e, por vezes, por aliança (Rute). A crueldade aparente de Davi ao medir os moabitas para a execução de dois terços deles (se seguirmos 2 Sm 8:2) é um ponto que requer sensibilidade exegética. Embora possa parecer brutal aos olhos modernos, no contexto do Antigo Oriente Próximo, tal ação era uma demonstração de domínio absoluto e um aviso severo contra futuras rebeliões. O cronista, no entanto, foca mais no resultado teológico: os moabitas tornaram-se servos de Davi, pagando tributo. Isso cumpre a profecia de Balaão em Números 24:17, que prediz que "uma estrela procederá de Jacó, e um cetro se levantará de Israel, e ferirá as frontes de Moabe". A vitória sobre Moabe, portanto, não é apenas um ato político-militar, mas o cumprimento de uma palavra profética, reforçando a ideia de que Davi é o agente da vontade divina.
A campanha contra Hadadezer, rei de Zobá, e seus aliados sírios (1 Cr 18:3-8) é a mais extensa e detalhada no capítulo, sublinhando sua importância estratégica e teológica. Zobá era um reino arameu poderoso que controlava rotas comerciais vitais e representava uma ameaça significativa ao norte de Israel. A derrota de Hadadezer e a captura de um grande número de carros de guerra e cavalos, além de uma vasta quantidade de bronze, são vitórias decisivas que expandem o controle de Davi sobre a Síria e garantem a segurança das fronteiras setentrionais de Israel. A menção de Davi cortar os tendões dos cavalos de Hadadezer, deixando apenas o suficiente para cem carros (1 Cr 18:4), demonstra uma estratégia militar calculada e, ao mesmo tempo, uma confiança em Deus, e não na força militar. Essa ação ecoa a instrução de Deus a Josué em Josué 11:6, de inutilizar os cavalos e queimar os carros dos cananeus, para que Israel não confiasse em sua própria força, mas na de Yahweh. A coleta do bronze de Tibate e Cum, cidades de Hadadezer, é significativa, pois esse metal seria posteriormente usado por Salomão na construção do Templo, conectando as conquistas militares de Davi com o propósito maior da edificação da casa de Deus.
Finalmente, a subjugação dos filisteus (reiterada em 1 Cr 18:1, mas aqui com a menção específica de Gate e suas aldeias) e as vitórias sobre Edom (1 Cr 18:12-13) completam o panorama das conquistas. A colocação de guarnições em Edom e a imposição de tributo demonstram o domínio total de Davi sobre as nações vizinhas, estabelecendo uma esfera de influência que se estendia desde o vale do Eufrates até o Mar Vermelho. A repetição enfática de "o Senhor deu vitória a Davi onde quer que fosse" (1 Cr 18:6, 13) ao final de cada grande seção de conquistas é a chave hermenêutica para compreender o capítulo. Não são as habilidades de Davi, a coragem de seus homens ou a superioridade de suas armas que garantem o triunfo, mas a intervenção divina. Para o crente hoje, essa exegese nos lembra que, em nossas batalhas espirituais e desafios da vida, a vitória não é alcançada por nossa própria força ou sabedoria, mas pela graça e poder de Deus. Somos chamados a lutar com diligência e fé, mas sempre reconhecendo que "a batalha não é vossa, mas de Deus" (2 Cr 20:15).
3. O Despojo da Guerra e a Santidade dos Bens: Implicações Teológicas e Simbólicas
O capítulo 18 de 1 Crônicas detalha não apenas as vitórias militares de Davi, mas também a disposição dos despojos da guerra. Esta seção, frequentemente negligenciada, possui profundas implicações teológicas e simbólicas, revelando a piedade de Davi e a centralidade do culto a Yahweh em seu reinado. O texto menciona explicitamente que Davi tomou os escudos de ouro dos servos de Hadadezer e os levou para Jerusalém (1 Cr 18:7). Mais significativo ainda é o registro de que Davi consagrou ao Senhor todo o ouro, prata e bronze que tomou de todas as nações que subjugou – Edom, Moabe, Amom, Filístia e Zobá (1 Cr 18:11). Esta ação não é um mero ato de piedade pessoal, mas uma declaração teológica profunda sobre a santidade dos bens e a primazia de Deus sobre todas as riquezas e conquistas humanas.
A consagração dos despojos ao Senhor ecoa a prática mosaica de dedicar os bens de guerra a Deus, como visto em Números 31, após a vitória sobre os midianitas. Essa prática sublinha a ideia de que tudo pertence a Deus e que as vitórias são concedidas por Ele. Ao dedicar os metais preciosos e o bronze, Davi reconhece que a riqueza material, obtida através da intervenção divina, deve ser utilizada para os propósitos divinos. O cronista, com sua perspectiva sacerdotal, enfatiza que esses bens seriam fundamentais para a construção do Templo em Jerusalém, que seria erguido por Salomão. Assim, as conquistas militares de Davi são diretamente ligadas à edificação da casa de Deus, transformando os frutos da guerra em instrumentos de adoração e serviço a Yahweh. Essa conexão é vital para o cronista, pois ele busca legitimar o Templo como o centro da vida religiosa e nacional de Israel, e a contribuição de Davi para sua construção é um testemunho de sua devoção e da aprovação divina de seu reinado.
Os materiais preciosos, especialmente o bronze, são mencionados com particular destaque. O bronze, retirado de Tibate e Cum (1 Cr 18:8), seria utilizado em grande quantidade para fazer o Mar de Bronze, as colunas e os utensílios do Templo (1 Rs 7:15-47). Essa provisão antecipada de recursos para a construção do Templo demonstra a providência de Deus e a cooperação entre o rei e o plano divino. Davi, embora proibido de construir o Templo devido às suas mãos manchadas de sangue (1 Cr 22:8), desempenha um papel crucial na sua fundação, não apenas planejando e organizando a mão de obra, mas também provendo os materiais necessários através de suas conquistas. Essa interconexão entre guerra, riqueza e culto é um tema poderoso, mostrando que até mesmo os atos mais violentos podem ser redimidos e direcionados para a glória de Deus quando realizados sob sua soberania e com a devida consagração.
Para o cristão contemporâneo, a disposição dos despojos de Davi oferece uma aplicação prática profunda. Em primeiro lugar, ela nos desafia a examinar como utilizamos os "despojos" de nossas próprias "vitórias" – sejam elas financeiras, acadêmicas, profissionais ou pessoais. Somos inclinados a atribuir o sucesso à nossa própria capacidade e a usar os frutos para nosso próprio benefício. No entanto, o exemplo de Davi nos convida a consagrar nossos recursos e talentos ao Senhor, reconhecendo que tudo o que temos e somos vem d'Ele. Em segundo lugar, essa passagem nos lembra da importância de investir na obra de Deus. Assim como os despojos de Davi foram destinados à construção do Templo, nossos recursos devem ser utilizados para a edificação do reino de Deus na terra, seja através do sustento da igreja, do apoio a missões ou do serviço ao próximo. Finalmente, a santidade dos bens nos adverte contra a idolatria da riqueza. Ao consagrar os metais preciosos, Davi afirma que Deus é o verdadeiro tesouro, e que as riquezas terrenas são apenas ferramentas a serem usadas para sua glória, não fins em si mesmas. Essa perspectiva nos liberta da escravidão materialista e nos direciona para uma vida de generosidade e adoração, onde "onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração" (Mt 6:21).
4. Relações Diplomáticas e a Manifestação da Glória de Davi: O Caso de Tou e Hadorão
Além das conquistas militares, 1 Crônicas 18 também lança luz sobre as relações diplomáticas de Davi, particularmente a interação com Tou, rei de Hamate. Este episódio, embora breve, é teologicamente significativo, pois demonstra como as vitórias militares de Davi, concedidas por Deus, levaram ao reconhecimento de sua glória e poder por parte das nações vizinhas. A menção de Tou enviando seu filho Hadorão (ou Jorão em 2 Samuel 8:10) para saudar Davi e parabenizá-lo por sua vitória sobre Hadadezer, o inimigo comum, não é um mero protocolo diplomático. É um reconhecimento do poder emergente de Israel sob o reinado de Davi, e, implicitamente, do poder do Deus de Israel. A glória de Davi, que é a glória de Yahweh manifestada através de seu ungido, começa a se espalhar entre as nações, cumprindo, em parte, a promessa de que Israel seria uma bênção para todos os povos (Gn 12:3).
A atitude de Tou é notável, pois ele não apenas envia saudações, mas também presentes valiosos de ouro, prata e bronze (1 Cr 18:10). Esses presentes não são apenas ofertas de paz; são tributos de reconhecimento da supremacia de Davi e, por extensão, da supremacia de Yahweh. A prontidão de Tou em se aliar a Davi contra Hadadezer, seu inimigo, demonstra o impacto das vitórias de Davi na geopolítica regional. Os reinos vizinhos começam a perceber que a força de Davi não é efêmera, mas uma força duradoura, apoiada por uma divindade poderosa. Essa percepção é crucial, pois estabelece a reputação de Israel e de seu Deus entre as nações, preparando o terreno para a futura influência de Salomão e a expansão do conhecimento de Yahweh além das fronteiras de Israel, como profetizado em Salmos 2:8 e 86:9.
A resposta de Davi aos presentes de Tou é igualmente reveladora. Ele consagra esses presentes, juntamente com os despojos de guerra, ao Senhor (1 Cr 18:11). Esta ação reitera a teologia da consagração dos bens e a primazia de Deus sobre todas as riquezas. Davi não acumula os tesouros para si mesmo ou para seu próprio luxo; ele os dedica à casa de Deus. Essa atitude de Davi serve como um testemunho da sua humildade e devoção, reforçando a ideia de que ele é um rei segundo o coração de Deus (1 Sm 13:14). A glória de Davi, portanto, não é uma glória egocêntrica, mas uma glória que reflete e magnifica a glória de Yahweh. As relações diplomáticas, assim como as conquistas militares, tornam-se veículos para a manifestação do poder e da soberania divinos.
Para o cristão contemporâneo, as relações diplomáticas de Davi e sua resposta aos presentes de Tou oferecem várias aplicações práticas. Em primeiro lugar, somos chamados a viver de tal maneira que nossa fé em Cristo