Houve um tempo em que o Filho não existia.
— Ário — a frase que provocou o Concílio de Niceia e foi condenada por ele
O Concílio de Niceia (325 d.C.) foi o primeiro Concílio Ecumênico da história da Igreja e um dos eventos mais importantes do Cristianismo. Ele foi convocado pelo Imperador Constantino I — o primeiro imperador romano a abraçar o Cristianismo — para resolver a crise teológica provocada pelo Arianismo. O Concílio reuniu aproximadamente 318 bispos de todo o Império Romano, a maioria do Oriente grego, em Niceia (atual Iznik, na Turquia).
O contexto histórico é crucial: Constantino havia acabado de unificar o Império Romano após décadas de guerra civil. Para ele, a unidade religiosa era essencial para a unidade política. A disputa entre Ário e Alexandre de Alexandria ameaçava dividir a Igreja — e, por extensão, o Império. Constantino convocou o Concílio não como teólogo, mas como estadista: ele queria paz religiosa, não necessariamente verdade teológica. Esta ambiguidade entre fé e política marcará todos os Concílios subsequentes.
O debate central em Niceia foi sobre o termo homoousios (grego: "da mesma substância" ou "consubstancial"). Os defensores da ortodoxia, liderados por Alexandre de Alexandria e seu jovem diácono Atanásio, propuseram que o Credo afirmasse que o Filho é homoousios com o Pai — da mesma substância, da mesma essência divina. Os arianos propuseram homoiousios ("de substância semelhante") — uma diferença de apenas uma letra (iota) que, no entanto, fazia toda a diferença teológica.
O Concílio adotou o homoousios por uma maioria esmagadora — apenas dois bispos recusaram assinar o Credo. Constantino exilou os recalcitrantes. A vitória nicena, porém, foi temporária: nas décadas seguintes, o Arianismo ressurgiu com força, apoiado por imperadores arianos. Atanásio foi exilado cinco vezes por imperadores arianos — daí o dito Athanasius contra mundum ("Atanásio contra o mundo"). Apenas com o Concílio de Constantinopla (381) o Arianismo foi definitivamente derrotado no Império Romano.
A batalha de Niceia não foi uma disputa acadêmica sobre filosofia grega — foi uma batalha pelo coração do Evangelho. Se Cristo é uma criatura, então a salvação é obra de uma criatura, não de Deus. Se Cristo é Deus, então quando ele morreu na cruz, foi Deus mesmo que pagou o preço do nosso pecado. "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo" (2 Co 5:19) — esta afirmação de Paulo pressupõe a divindade de Cristo. Niceia não adicionou nada ao Evangelho — ela protegeu o Evangelho contra uma distorção que o teria esvaziado.